sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Verdade ou Consequência


                 Aliás, bastou uma noite para ruir um templo de memórias, pois a vida – como já se sabe – é feita de escolhas. Era muita determinação esmerada conferida àquele relacionamento amoroso. Era - porque se desfez este templo, com as cariátides se pondo a baixo, altaneiras despencando em cheio no concreto. Eram, antes, dois - e isso era certo. O incerto é que o mundo é maior que os dois e por volta passeiam vários planetas. Por vezes um campo de atração inexato polariza um clima e um planeta explode se colidindo de uma maneira que nós (seres firmes) não pensamos nunca em vivenciar.
                Mas acontece que, numa noite estúpida, entre amigos de anos (dessas pessoas que vivenciam e compartilham tudo, incluindo liberdades), Thiago se pôs a beber em roda e em risos – longe de Ana Paula, a namorada, que estava viajando de férias, na casa dos pais. Thiago, na casa de Carolina (uma ex-namorada, agora amiga), entre seus amigos, chegou a fumar um cigarro – coisa que não fazia. Parecia a liberdade entre seus amigos ser tanta e tão colorida que resolveu embarcar na onda dos demais. O problema é que, toda a fortaleza do namoro de Ana Paula e Thiago, todas as juras de amor e todos os momentos, poderiam não aguentar a rodada de Verdade ou Consequência, 7 cervejas, um clima amistoso, lembranças passadas e os braços de Carolina (a ex).
                Thiago realmente era forte. Não só no físico, mas no que propunha como escolha de vida: seu namoro inabalável, rondado de ciúme, carinho demasiado em proteção, promessas e filmes que rodavam em projeções futuras. Mas Thiago era sonso e não sabia negar – o que fez dele alvo de suas convicções, pista de prova para uma corrida contra si mesmo.
                O jogo começou a partir de uma voz tonta e bêbada de Guta, uma descoladinha da roda. Pegou uma garrafa vazia de cerveja e bradou como novidade: Ah, vamos jogar “Verdade ou Consequência”? – uns toparam no ato, outros fizeram muxoxo, mas cederam à diversão.  O assunto anterior à proposta repentina era “Sexo” e ali começaram a relembrar histórias do grupo de amigos, a expor intimidades e até segredos mais picantes. Relembraram de uma historinha engraçada de “Carol e Thi” – os dois se riram e se abraçaram. Essa coisa de lembrar a época das experiências gera um clima que é normal entre jovens reunidos, ainda mais de longa data. Mas é um clima que tonteia – mais que a bebida. Acontece que Ana Paula estava feliz demais com os pais em Grussaí, pegando uma cor, pensando em Thiago e mandando mensagens para o celular dele a cada hora. Ele, enquanto reunido com a galera nesse dia, não olhou o celular que estava vibrando dentro da mochila, num canto do quarto de Carolina.
                O primeiro a pagar a prenda foi Levi, que se levantou claudicante, com a perna dormente de tantas horas sentado rindo e bebendo. Mas, em pé, teve que mostrar uma pinta grande que tinha na nádega esquerda – aí todos riram e Maria Isabel deu um tapa em cheio em sua bunda. O segundo foi questionado sobre um assunto íntimo e contou uma verdade, sobre sua namorada – chegou a imitá-la gozando. A terceira foi bem rápida: contou uma verdade boba. O quarto, este de nome Thiago, teve que ir além. Pagou uma consequência, incentivado por palmas e coro de “beija-beija-beija”. E Thiago assim, deu um beijo de 10 segundos em Carolina – que desmontou lívida. Foi só isso no jogo. Fingiram não acontecer outro clima mais sério, deram andamento. Nesta noite, Bebel e Danilo ainda ficaram, quando tudo já era lixo.
                Ficou tarde, sem metrô ou ônibus seguro que passasse. Thiago, Mayara, Levi, e Maria Isabel foram convidados por Carolina a ficar na casa dela. Enquanto desenrolavam 3 colchonetes sujos e poeirentos, Bebel e Danilo anunciaram que iriam para um motel. Um coro de incentivo e piadinhas foi ouvido com o mesmo tom das idiotices de grupo. Thiago, nesta hora, a tantas da madrugada, foi à mochila, verificou o celular e viu uma mensagem da namorada, que dizia estar comendo pizza com a família, que também mandava beijo. Terminava com: “boa noite, tô com saudadessss”. Ele passou uns 12 minutos respondendo o SMS, por estar em outro tempo. Forçou a cabeça para não escrever errado, escrever besteira. Pesou a consciência por poucos segundos, pelo beijo do jogo. Mas ele se enganou, pensando que aquilo não era traição, que era algo simples, de amigos antigos. Pensou até com desprezo em Ana Paula: “ah, ela nunca me deixa ver os amigos e agora está em Grussaí...”. Thiago, zonzo de sono e de porre, desligou o celular quando Carol entrava no quarto. Ela disse que tinha um lugar na cama dela e que os outros já estavam caindo pelas tabelas, sobre a poeira dos colchonetes. Ele não viu problema: eram amigos, nada mais. Mas Thiago era sonso e não sabia negar – o que fez dele alvo de suas convicções, pista de prova para uma corrida contra si mesmo. E Thiago foi se enganando, Carolina se entendendo. Os dois se deitaram e Carolina abraçou Thiago, é claro. Não teve jeito de controlar a ereção. Ela – justamente ela, que Ana Paula vivia com ciúmes, dizendo ser ela tão feia e de um passado tão imaturo do namorado -, como já esperava, passou a mão no short de Thiago e o resto foi de uma consequência e de uma verdade que não estavam em jogo. Foi burrice, coisa de sonso, de jogar consigo mesmo, dizendo ser tudo normal. Entre amigos ninguém fala nada. Segredo dele é segredo dela.
               Acordaram os dois juntos, com olhos abertos quase que concomitantemente. Ele soltou um: não acredito. Ela riu e disse não ter problemas. Thiago sabia que Carolina não ia contar nada, nem os amigos. Afinal, eram amigos de anos, longa data. Com Ana Paula ia ficar tudo bem: ela ia saber da noite dos amigos, ver poucas fotos (de antes da galera bêbada e sem foco), perguntar um “se comportou?” e receber um “claro, amor”. Talvez ficasse chateada, por ele ter dormido lá. Mas ela ia saber que Thiago dormiu com Levi e que Carolina tinha ficado com Danilo, que havia pintado um clima. Ana Paula não ficaria com verdades, nem consequências – ficaria com uma mentira entupida, ainda sorrindo por ser mais sonsa que o namorado. Eles se amam tanto!
              Isso tudo em uma noite. Aliás, bastou uma noite para ruir um templo de memórias, pois a vida – como já se sabe – é feita de escolhas.

Marcelo Asth

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Madame Lise Feu de la Mer





Ao contrário da distinta Confeitaria Prodígio, onde a moda francesa avançava as calçadas e mascarava os detritos, a Camerata Leopoldina acendia suas luzes por volta das 19h para um público de homens ricos, artistas, músicos intelectuais e bons bêbados, numa rua torta e estreita do boêmio bairro do Olegário. Por lá, as meninas traziam um brilho e eram escolhidas a dedo para dançar e cantar números ousados, onde mostravam as coxas nos palcos e as nádegas nos bastidores. Era o ano de 1922 e tudo corria bem por aqueles arredores, onde a alegria parecia se instalar como parceira de farra – quando a polícia não dava batida e levava a escumalha arruaceira das intermediações. O local era frequentado por policiais sem farda, que não pagavam o ingresso (eram pagos para entrar e se comportar como homens livres) e entravam em troca de uma vista grossa para algumas das liberdades tomadas no espaço.
Logo na entrada, via-se a chapelaria, comum nos clubes ou casas de chá. Mas além da grande porta vermelha encapada – de onde se ouvia um burburinho de ruído musical – os bons costumes davam folga aos homens que já chegavam desabotoando os punhos e desatando os nós das gravatas. O calor era grande, tanto pelo ambiente não muito ventilado, quanto pela provocação das rendas e das poucas carnes expostas por aquelas musas, que assim permitiam viagens de euforia, que se davam na soma da cocaína vendida nas farmácias (ao lado de depurativos, elixires e garrafas de Coca-Cola). A música era uma bomba, aprovada pelos homens rudes e também pelos frequentadores de ouvido refinado e fino trato. Era popular, profana, delicada: tornava o ambiente a casa dos prazeres, com tons franceses de acordeão, vindos de cantos distantes e oníricos. Pois parecia - depois de atravessarem aquele portal divisório – transporem-se para uma área distante do globo terrestre. Rolavam entre os adolescentes mais espertos dessa época, pequenas revistas de mulheres com pêlos avantajados no púbis, seios redondos e sorrisos etéreos. Mas ali, para aqueles homens, aquilo era mais que concreto às vistas: o lar das maravilhas. Tudo compunha: o cheiro de bebida, perfume e suor, as luzes tímidas de penumbra e os pequenos focos de velas sobre as mesas, um mobiliário refinado onde não se precisava escorar ou sentar com a devida elegância do espaço público, lá fora. E fêmeas, poucas, em número certo, livres e lindas, que cabiam nos olhares e na imaginação dos muitos pagantes.
Este local nunca seria o mesmo. Impressionante pensar como uma presença feminina iria revolucionar não só aquele espaço febril, mas toda a cidade comportada. Madame Lise Feu de la Mer - Lise para amigos íntimos que a visitavam depois de suas apresentações e a levavam para jantares e passeios. Era esta uma francesa recém-chegada ao Brasil, mulher de fogo, artista renomada no país de origem, amante dos que a alçavam às alturas sociais. Queria devorar a todos e tinha trejeitos de santa. Viajou para o Brasil com a promessa de ser a maior musa de cabaré das Américas. E foi. Pagavam caro para vê-la, e bons políticos presenteavam joias. Alucinava com seu número de entrada, sem a presença de coristas. Era somente ela, com um foco de luz nos lábios, o corpo sendo seduzido aos poucos por outras luzes que espocavam e expunham um feitiço que nenhuma outra conseguia alcançar. Começava assim a noite espetaculosa: palco escuro, expectativa... uma cortina se abria com uma perna da fera e um canto de sereia assombrava e fazia tremer as pernas daqueles homens que estavam ali para serem fortes. Ninguém resistia à voz daquela mulher e uma cortina brilhante - uma miríade de estrelas - anovelava-se a ela. Mas apenas uma estrela era capaz de brilhar naquela escuridão. Ouvia-se, doce e calmamente, maliciosa e gostosa, a voz que convidava ao delírio: Ma chambre est un repaire de la luxure, la colère vient à démêler. Mes fenêtres sont ouvertes à la brise. Quand j'ai vu que tu étais là, à regarder mon jour à l'autre. Qu'ai-je fait? Vous avez demandé à chanter!
Era mais velha que muitas das meninas, conhecia o can-can com a habilidade de suas pernas longas, mas não mais o dançava. Exibia-se agora de jeito delicado, sem ser ágil, com olhos fuziladores. Era diferente das outras – não era vulgar nem se estadeava à toa. Tinha olhos exóticos de madrepérola, uma tez nívea, uns lábios de tom rosicler, naturais e carnudos, que faziam coreografia com as palavras: Qu'ai-je fait? Vous avez demandé à chanter ! Era um mar de fogo.
As esposas, revoltadas com a estrela vinda de fora – que mexia com os maridos, arruinava fortunas familiares e era, de fato, a mulher mais quente na cidade – ficavam nos lares rezando, e quando cochichavam umas com as outras, entre muros e vizinhanças, rogavam pragas e ficavam curiosas por ver a francesa fresca – como a chamaram, de cara. Apelidaram-na de Madame Lisa Fedida de Merda. O apelido mal educado rompeu o silêncio e as mulheres passaram a invejar e a maldizer a francesa da Camerata Leopoldina. Mas os jornais não lançavam charges ofensivas nem davam espaço para essa onda contrária que crescia. Apenas manchetes de elogio e de anúncio da grande artista. A Camerata Leopoldina, que antes da chegada de Madame era um antro desesperado da luxúria, tornara-se um local sacro, um espaço de devoção e de grandes números musicais. Ganhara outro status.
Madame Lise Feu de la Mer passara agora a frequentar a Confeitaria Prodígio, o que causou uma balbúrdia na sociedade e aplausos de outros artistas que a reconheciam como brilho único. Lá nunca ia sozinha – estava sempre acompanhada de algum amigo que lhe pagava o chá de hortelã e torradas. Era convidada para rodas de intelectuais, palestrando sobre as modas, os costumes e as vanguardas artísticas. Não era a mulher mais inteligente do mundo, mas sabia sorrir e falar as coisas mais agradáveis de suas experiências – que ninguém sabia se eram verídicas, mas eram sempre detalhadas com boas passagens espirituosas. Tinha sido amiga de importantes literatos franceses, dizia. Muito bem vestida, com rendas, chapéus requintados, perfumes originais, sapatos únicos – as mulheres morriam de inveja por ela ser francesa de verdade, dona de toda a moda e originalidade que elas procuravam alcançar. Aos poucos foi sendo melhor falada nos círculos, mais desejada nas rodas, mas sempre invejada. Era mulher de verdade, possuía um terremoto na alma, era sensível e de opinião. Ganhou seu espaço, vários espaços, jornais, a cidade inteira.
Albertino, um garçon novo na Confeitaria, nunca tinha ido a Camerata. Era de uma família portuguesa, usava um belo bigode e tinha seus 23 anos. Dona Isaurinha, sua mãe, rezava diariamente para que seus meninos não fossem homens de fraca índole e não podia imaginá-los andando por aquelas bandas de pecado. Dona Isaurinha nem gostava do fato de Albertino ser garçon de uma confeitaria frequentada por artistas. Mas ele ganhava bem, era bom moço e garboso, tinha um nível de estudo razoável e ia à missa aos domingos.
Um dia, Albertino viu Madame Lise entrar pela porta do meio da Confeitaria. Sentiu seu perfume de longe e por pouco não derrubou a bandeja quando viu que a mulher olhou diretamente para ele. Neste momento, Lise com um olhar de ímã arrastou o garoto a seu pedido. Estava sozinha e queria um chá de hortelã com torradas passadas em manteiga – tinha um gosto simples e isso gerava admiração das cocotas que olhavam de soslaio o que a madame consumia. O chá foi servido e Madame entregou a ele um lenço de seda, com um perfume doce e delicado. Disse quase sem olhar seus olhos: At-on jamais dit que vous avez les yeux effrayés d'un loup? – algo do tipo : Alguém já disse que seus olhos são de um lobo medroso ? O menino não entendeu nada e pediu desculpas. Ela então soltou : Já visitou a noite de uma estrela? Vous me donne envie d'être jeune. Ela teve vontade de ser jovem com ele. E assim, convidou-o a passar uma noite na Camerata. O rapazola ficou vermelho, pediu licença e foi atender outra mesa, sem tirar os olhos da Madame – que também o olhava. Perguntou discretamente a Rodolfo, amigo garçon da casa, quem era aquela mulher. O amigo riu da ignorância do jovem e disse que ele estava carregado pelas asas da sorte. Nunca Madame tinha se dirigido a um garçon diretamente, entrado no recinto chamando por alguém. Perguntou o que ela entregou para Albertino e ele se intimidou ao dizer que tinha em seu bolso um lenço de seda daquela mulher. Rodolfo não acreditou que Albertino desconhecia a figura de Madame Lise, que só a conhecia de nome. Pudera. Era novo na Confeitaria e vivia uma vida religiosa e calma – não por vontade, mas por costume. Foi para sua casa tentado pelo convite que recebeu, por aquelas palavras que não paravam de ecoar em sua lembrança. Nada tinha sido entendido em francês, mas ele entendeu toda a intenção daquela epifania. À noite, sob o lençol, pôs o lenço perfumado em seu pênis, por debaixo das grossas ceroulas. Se masturbou com medo de ser descoberto na calada da madrugada, mas só teve ali um êxtase, um gozo como nunca, um desejo de mulher. Passou a andar com o lenço no bolso de seu uniforme de trabalho, para que dona Isaurinha não descobrisse - enquanto fuçava suas roupas sujas – os vestígios de um sonho. O rapaz andou distraído, pensando na mulher, zonzo como encantado. Passou a comprar os jornais em que a mulher aparecia sorrindo como uma deusa, passou a perguntar para os amigos como era a Camerata. Até aprendeu o primeiro verso de seu famoso número no cabaré : Ma chambre est un repaire de la luxure, la colère vient à démêler. Assobiou no banho. Passados três dias, Madame retornou à confeitaria certa de quem seria seu atendente. Seu pedido foi o de sempre, mas seus olhos passeavam de forma constrangedora pelo corpo do garçon. Albertino, desastrado com aqueles olhos que o desestruturavam, esqueceu para fora de seu bolso a ponta do lenço dado por Madame. Ela, reconhecendo, sem hesitar, puxou o lenço dobrado e colado pelo sêmen do rapaz. Ela cheirou o lencinho e pediu para que Albertino fosse à Camerata naquela noite. Naquela noite ele não podia – não havia dado tempo para desculpas no lar.
Madame Lise não era virgem, como todos sabiam. Muitas mulheres, mesmo casadas e com vários filhos, pareciam ainda virgens, tanto era o recato, em todos os sentidos. Madame era uma mulher vivida, mas não era flor que qualquer um cheirasse. Os garçons amigos de Albertino não podiam, durante o trabalho, mostrar-se ansiosos pelos detalhes, mas acabado o expediente, vibravam quando sabiam de alguma palavra que ela tinha soltado ao jovem novato. E ficavam abalados de inveja. Todos enfrentavam a fila para a Camerata – nem sempre entravam. E só Albertino ficava em casa, a imaginar a dama da noite. Certo dia, deu-se por resolvido que iria à Camerata, ver Lise como aquele mito. Em casa, disse à mãe que queria melhorar de vida, melhorar os estudos, juntar uma fortuninha para seu futuro e para sua mamãe amada. Disse ter sido indicado a uma vaga no Jornal do Meio Dia, e que teria uma entrevista no Centro, naquela noite. Decidido, disse que o expediente era noturno e que seria uma alavanca para a vida deles. Passou, assim, a frequentar a noite boêmia.
No primeiro dia que se pôs na fila, enfiou-se num chapéu para não ser reconhecido. Não entrou no casarão antigo. Voltou no dia seguinte, viu alguns clientes da confeitaria e gelou. Depois viu Rodolfo e pensou que se ele era antigo na confeitaria e frequentava aquele lugar, também não havia de ter problemas para ele. Entrou pela porta vermelha encapada, ouviu o ruído da música de um outro mundo e se pôs dentro da farra da Camerata. Na mesma expectativa dos outros homens, sentou-se numa cadeira, ao fundo e um delírio passeou elétrico por seu corpo jovem. Como tinha decorado algumas palavras e trechos melódicos de abertura do número musical, se colocou pronto para silabar com ela seu francês treinado, de ouvido. Mas o número era outro. Sem cortina, entrou Madame, sob aplausos e gritos, com máscara de tigresa cintilante de brocal preto: Un chasseur de larges épaules de jeunes m'a regardé, dame de la jungle. Il vise la carabine dans mes yeux, frissonne quand il entendit la voix de la bête... uma música animada que levou ao delírio todos os homens que ali estavam. Madame desceu do palco e ao ver Albertino na plateia, foi direto a ele e rugiu como a besta da selva que cantava na música, pegando com suas garras falsas o chapéu do jovem. Meow, bébéterminou seu número com brilhantismo e galhardia. A cada semana agora apresentava um novo número e a casa passou a ter problemas de lotação. Madame era a estrela da cidade, a dona do coração dos homens.
Esperou a casa fechar para falar com a estrela. Era difícil : um mar de bêbados à frente se colocava como um muro de imbecilidade. Albertino sentiu um desespero, uma raiva desmedida e sem controle. Aquela mulher já era dele, em sonhos e nos olhares que ela lançava. Viu que saiu do camarim um outro homem, elegante e bonito, com a barba por fazer e a camisa desabotoada. Ébrio, percebendo alguns olhares, foi se ajeitando e saindo do cabaré, de sorriso torto na metade de seu rosto, cheirando a perfume doce. Albertino quis morrer, imaginando que aquele homem tinha acabado de estar com Madame em intimidades. Resolveu ir embora, mas não conseguia tirar da cabeça a mulher de seus pensamentos noturnos: Meow, bébé. No trabalho, encontrou com Madame novamente, mas fingiu não vê-la. Foi atender a mesa 13, fugindo com destreza da tigresa da noite passada. Pensou com intenção de ira e nojo: Madame Lisa Fedida de Merda - como soube também chamar.  Mas Madame, que ali estava estonteante e perfumada, foi até o moço, levantando-se da mesa e direcionando-se ao balcão. Ali, pediu para ser atendida por ele. Disse que não parava de pensar no bébé e que ela queria muito conversar em particular com o garçon. Logo Albertino mudou seus pensamentos, sentiu-se orgulhoso por ter total atenção daquela que todos queriam. Topou o encontro, saindo dali do trabalho e ingressando pela porta lateral da Camerata. Ficou se sentindo importante: aquela mulher me quer, a cidade inteira a deseja! Uma grande artista! E eu! Eu!
As horas nunca passaram tão vagarosas. Os minutos frouxos em lentidão. Dado o toque do final do expediente, Albertino saltou em galope para o local marcado. Bateu na porta da Camerata com discrição e aprumou-se, escondendo-se no chapéu para não perder o tino, a compostura e seu brilho. Era um rapaz bonito, de olhos amendoados e parecia mais velho que seus vinte e três. Seu bigode passava a ideia de virilidade, apesar do rosto delicado. Era alto, maior que Madame, e seus braços sonhavam conquistar toda aquela figura. Entrou no espaço, que àquela hora estava muito diferente do período da efervescência.  Um servente da Camerata disse que Madame o esperava. A porta do camarim, apenas encostada, era um convite. Cantava baixo uma cantiga velha, de algum cabaré antigo. Albertino bateu com decisão à porta e entrou sem esperar a voz de Lise. Ela sorriu e naquele primeiro instante, somente um papo demorado tomou de assalto os dois. Ela era mais inteligente e brilhante do que ele imaginava. Ela, com malícia, entregou a ele um novo lenço. Sorriu e ele, já sem a timidez habitual, procurou beijá-la. Ela o afastou, pedindo calma: depois da apresentação de hoje. Ele, afim de não mostrar-se tão fácil numa conquista - coisa de charme -, disse não poder estar presente no número, que tinha que estar em casa. Ela respondeu com encanto: ah, pode sim... Ma fontaine de jouvence, je me perds en toi...
      Depois daquilo, era certo que não havia desculpas do jovem. Ele iria ficar e visitar novamente o camarim da grande dama.

(continua)

Marcelo Asth

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Carpa Tubo Vermelho





A angústia cai densa feito granizo em câmera lenta, enuviando a garganta, manchando o solo, tapando os buracos, correndo água espessa. Bateu aquela pena de mim, dor de produto. É demais ser configurado humano. Tá na chuva para se molhar. 

A chuva cai densa feito granizo em alta velocidade, som martelante no coração. Eu tremi porque pensei que pudesse escangalhar. O coração se debateu de frio - carpa num lago escuro e serrano. Bateu aquela pena de mim, como quem bate clara em neves.

Todas as projeções me assombram. É como estar de frente a um beco de sonho, negro colorido, de medo e não saber se vai à frente ou acorda. Eu vazo um pouco do vazio da angústia nas vagas expressões de pena. É demais ser configurado humano: tudo é galeria, vitrine de um longo tubo vermelho de fantasia. Um pouco de liberdade sufocante. Nada mais.


Marcelo Asth

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ciúme

A dor do câncer é involuntária, é insatisfeita, é sanguessuga. O bote se dá como picada na selva, corpo-curto-circuito, vontade de desmaiar. A dor do câncer machuca tudo e todos. Eu fui me despedir de mim, enquanto me cortava em mil. Enquanto choro, embaço o mundo, pingando dor ruminada. A dor do câncer é uma pinçada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Dominó



Uma calapsita, dois cactos, um peixe feio que refletia o neon, uma televisão de 1985 (que só deu problema duas vezes até hoje), um gato branco de porcelana na estante bamba, um sofá com a marca do lugar preferido e uma cortina florida (um lar de ácaros). Orandina no meio desses elementos, cosia, vendo o filme da tarde. Bastava um pio de bem-te-vi vindo de fora e a velha imitava o pássaro, numa mania besta. O café esquentando no bule novo, um pão quentinho que ela trouxe agora-agora, chinelas com meias, ar abafado, sorriso mental. Paz na terra às senhorinhas aquietadas, vida mansa que só.

O telefone toca. A velhinha pequena fica na dúvida se é em sua casa - há muito não ligam pra lá. Atende dizendo "pronto". É Ângela, que demora a reconhecer. "Ângela... Ângela... ah! Ângela, quanto tempo! Me desculpa, minha filha, é que já tô meio tan-tan."

A mulher que ligou não ligava há uns 3 anos. Era sua ex-nora. Ela e o filho de Orandina moravam em Gramado, sul do Brasil - foram pra lá há muitos anos e abriram uma sorveteria que não deu certo. Aliás, nada por lá deu certo, nem o casamento. Mas ficaram; a cidade era bonita. Ligou pra dizer que o ex-marido, filho da ex-sogra, o Everaldo, tava no CTI e que... 

Orandina gelou e desligou o telefone na hora, sem mais ouvir, porque CTI é caso sério. O nervosismo tomou conta e ela chorou sem saber o que fazer, parando imóvel ao lado da calapsita que ficou também nervosa em ruídos descontrolados. Saiu da casa a velha, ruminado uma quantidade imensa de "meu Deus" e esquecendo o café esquentando no fogo. Foi chamar no muro Ruth, vizinha boa, mas a voz não deu. Foi picada ali por uma abelha estranha que se enfiava entre as graxas - a flor feia que dava no lado de lá do muro da Ruth. A velha foi ficando tonta, inchando o rosto, mudando a cor. Entrou novamente pra sentar, perdendo o ar. Seu pé entrou por debaixo da dobra do tapete grosso e ela caiu batendo o ombro da bursite na mesinha de centro. A calapsita insistia berros, o peixe olhava assustado. Os ácaros de nada souberam. 

Por sorte o telefone tocou novamente - na raridade de duas vezes no mesmo dia. Era Ruth - que ligava pouco porque tinha o muro -, querendo saber se Orandina estava a fim de jogar dominó com ela. As duas jogavam vez ou outra pra passar o tempo, tomando café e falando da Igreja. Orandina atendeu golfando um "meu Deus" numa voz sem jeito, de agonia, e Ruth correu esbaforida num galope, deixando a Bíblia cair de debaixo do braço e deixando-se esquecer das coxas roliças assadas na saia de crente. 

Abriu o portão e por sorte Orandina não tinha colocado a tranqueta. Deu água pra velha, gritou Tijolo pra pegar o carro - que guardavam na vaga do prédio da frente. Correu pro hospital e, no caminho, deitada no banco de trás do Passat com Ruth, teve um infarto. Ruth gritou e Tijolo foi rezando alto e forte - um desespero desmedido. Foi pro CTI desacordada. Ruth se chocou, passou um tempo com Tijolo por lá, resolvendo as coisas, e ligou pra uma irmã que Orandina tinha na cidade. 

Quando Ruth voltou pra casa, cansada e abatida, com olhos fundos e opacos, sentiu cheiro de queimado e correu pra casa da velha vizinha. O café esquentando não era mais café: era uma massa preta fundida com o ferro do bule novo que já tinha queimado, junto a um pano de prato que dava início a um incêndio feio na cozinha tomada de calor. A calapsita de Orandina ficava na cozinha e já tinha morrido - coisa horrorosa mesmo de se ver. Ruth foi gritando pro Inimigo sair dali, pedindo ajuda de Deus e tentando falar a língua dos anjos (como os pastores faziam no culto). Inacreditável, uma brabeira. Tijolo providenciou água pra apagar o quanto podia e ligou pro 193.    

Everaldo nem ligava muito pra mãe, só dava um toque por mês - quando muito. Mas era filho, isso era verdade. Ela não ligava pra não incomodar. E ligar pra lá era mais caro. A velha poupava em tudo. "Filho a gente cria pro mundo". Ele trabalhava no CTI - Centro de Taekwondo IMPERADOR, ao lado da Gramado Fitness. Era dono da academia e professor de Taekwondo. Isso tudo depois da sorveteria não dar certo. Orandina não sabia pronunciar o que o filho fazia de jeito nenhum. "Essas lutas malucas de japonês". E também não era de ficar lembrando o nome da academia do filho, lá longe no Sul.

O que aconteceu foi um equívoco - talvez trapaça do Inimigo. É que Everaldo dava muita aula e pediu pra sua ex-mulher Ângela (com quem tinha agora um bom relacionamento, como amiga, e que trabalhava como secretária do CTI) pra que entrasse em contato com sua mãe pra convidá-la a passar uns dias em Gramado, chegando até mesmo antes do preparo da festa de debutante da neta Priscila. E pediu pra dizer que mais tarde, à noitinha, ligava de volta pra saber se a velha tinha se decidido a ir. A ex-mulher não entendeu o motivo de Orandina desligar o telefone em sua cara. Ficou pê da vida e disse pra Everaldo ligar depois - que ela estava sem paciência pra chilique de ex-sogra caquética.

Não teve telefone de volta. A irmã de Orandina foi pro hospital acompanhá-la, ligou pro Everaldo e contou o que havia acontecido - ou pelo menos uma pequeníssima parcela dos fatos ocorridos com a mãe dele naquele dia. Têm coisas que só quem vive é que sabe. 

Ângela recebeu a notícia, chorou feito criança e se lembrou com assombro da última vez que ouviu a voz de Orandina - sem saber que era ela que havia impulsionado, sem querer, a última peça da fila de dominós que a vida de Orandina dispunha secretamente.


Marcelo Asth

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Demência

- Sim, Clarice, nós ainda somos muito jovens...
- Eu queria ter 5 anos.

E ficavam a ralentar a nostalgia na suspensão de um passado perfeito. Pois não precisava ser perfeito, mas trazer uma atmosfera de um tempo passado, onde nada os preocupava. Na memória, estavam intactas as lembranças junto às criações que o tempo nos dá em liberdade. Tudo vira uma soma de algo que não existe, mas que aconteceu. Lá estão as noites de verão na varanda, a folia de Reis na madrugada - acordando a casa -, as tanajuras infestando o quintal em revoada, os olhos ardendo do sal do mar, os macacos brancos do zoológico. Esses macacos ficaram na cabeça como um marco de um contato com a natureza mais distante (de forma próxima), uma luz perfeita sobre a copa das árvores do local, o cheiro da água que levantava do tanque do hipopótamo. 


Mas ficou uma lembrança que eles tinham certeza de que havia acontecido: um dos macacos brancos falou com eles. Clarice que disse na hora, Marcos acreditou. Até hoje eles têm a certeza do fato. O macaco tinha falado sobre ter cuidado com os outros que se escondem na árvore pra roubar tudo o que existe. Não tinha muito nexo, mas aquilo impressionou profundamente.

- Um dia eu quero ser grande.

Falou, já adulto, sem compreender o que dizia. Clarice levantou os olhos e sentiu na palma das mãos a secura do tempo e não soube mais pensar com precisão o que é o tempo. A lembrança infestava sua mente como as tanajuras veraneias, morrendo vespertinas.

É um tempo sem tempo este que os habita. Um tempo onde as lembranças trazem a perfeição, pois o passado traz a base da felicidade que não tem volta. A felicidade nunca está lá na frente, ela já passou. Não tem mais jeito.

- Eu também quero crescer. Mas do jeito que eu era antes... como a gente era.

Qualquer lembrança era mera coincidência com o ocorrido. E vinha revestida de onirismo e demência. Toda a forma de se acessar o incrível lago submerso de nossa história é pura insanidade.



Martina Lengruber 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dentes-de-leão


Quando eu era criança, amputava com minhas mãos inexatas e inocentes as hastes frágeis dos dentes-de-leão. Daí, dono daquela leve efemeridade, soprava com a força de um Zéfiro o pólen branco que se dividia aéreo como projéteis vivos. E de repente me via com cabinhos verdes na mão, sem graça, bobos. Não me eram mais úteis. Então, jogava-os na grama. Ali aprendi a espalhar o que agarrava com firmeza e jogar fora o que não me prestava. E quando a gente espalha algo, sabe que não é mais nosso, que vai além. Eu teria polinizado algum canteiro verde com minha ação de vento.
Hoje, parece que amputo meus pensamentos – campos sem-fim de dentes-de-leão. E com eles na mente, sopro com um pulmão limitado, débil e enfermo, o que posso pra fora. Expiração de esforço, lobo mau derrubando castelos dos grandes. Metade dos pensamentos bate no ventilador da sala - meu moinho quixotesco -, metade alcança uma parábola decrescente e mira o chão. Talvez um pensamento apenas voe na direção certa. Esse, espero que polinize o campo verde que quero reproduzir. Ainda pode estar vagando, curtindo as ondas do ar. E é meu desejo agora guardar os cabinhos pra uma coleção de fracasso.

Marcelo Asth

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

12:54

Posso parar este instante no máximo de detalhes que recolho. Retalhos: pios, calor, janela aberta em leve brisa, um caminhão dispara o motor, uma mulher fala ao telefone coisas de uma vida alheia, a montanha não se aguenta de luz, as flores morreram (mas ficaram hastes verdes), 12:43, menta no boca, quadros estancados, coluna curvada como a montanha. A imagem nas mãos, não nos olhos. Mas se abrir uma fenda no meu corpo, vai vazar tanto espírito que não se acreditaria. Pra não derramar por inteiro, vou só furar um ponto, com uma agulha calibrosa, de intenção pontiaguda e roliça. Pronto. Já saiu tanta coisa, que dá pra averiguar nos montes que se revelaram em minha sala, diante dos olhos – e não das mãos. Antes, devo aconselhar que a vida é só uma experiência. E quando estamos tristes, parece que entendemos, de fato, tudo. O pessimismo revela aos quatro cantos de qualquer espaço, uma entoada de sabedoria, como vento forte. É que se pára para perceber que tudo é prova. Ganhamos sentimentos da natureza por provação. Somos fase de videogame – quem será o habilidoso jogador a manipular os impulsos? Aí são olhos e mãos.
O que tem ao redor, que saiu fedendo, jorrando e temendo – revelando -, foi um desgaste tremendo que nem um pouco cintilou de luz. Uma dúvida curvada (não como a montanha), 12:49 (e todos os outros tempos contidos), uma sensação de fracasso (por não ser como o mármore, por não ser um deus), uma estranheza do mundo (difícil é alcançar paz, como uma montanha), fotos (antigas), fofocas (mentirosas e lancinantes), chateação (ainda futura), vitrines (tudo é exposto), tolices (desejo de ser maior que tudo o que aflige), músicas (seria conforto uma surdez repentina), ciúmes (não sou aquele).
Precisei furar um ponto na pele por estar estourando de lotado. Guardo tudo e não reciclo. É tanto medo colocar as mãos e olhos sobre o lixo, reciclar-devolver beleza ao mundo. No momento, prefiro vomitar, furar pontos, conduzir tudo o que me pesa pro fundo do oceano, onde um golfinho no golfo possa se alimentar e golfar todo o reciclado que, por fora de mim, se faz em contato com o mundo. Sou tão pequena que agora me escondo. 12:54.

Marli Gadot 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Trompete

Quanto maior a ignorância, maior o medo. Não pela questão de ignorar por opção. As coisas são muito difíceis de entender. E será certo entender tudo? Ficamos no medo. Ficamos no meio do caminho, não querendo voltar, sendo penoso o passo à frente. Daí, o medo. Não tenho a suficiente sede de busca para me arrebatar a coragem vertiginosa. A coragem, sim, vem em forma de vento.
Minha opinião é curta; não culta; acredito no que é melhor; sou pouca razão; muita sensibilidade. Sendo ignorante de muito, mamando nas tetas sem saber da proveniência do leite, se me dão um tapa pra acordar, me acusando de estar dormindo... daí vem o medo. Pra acordar, concordar, entrar em acordo com quem me esbofeteia. E eu, olhando o alto do céu, num mínimo barulho, como um grilo de olhos espantados. E o outro, querendo-me elefante de sons de trompete. Se me explicarem bem, eu entendo. Quase nunca por mim só.
Me sinto inseguro por não me segurar. Me vejo no escuro quando durmo num olhar cego não por querer, mas por estar.

Marcelo Asth

Página 24

         Lavínia precisava decorar seu texto: 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica. Andava pelo apartamento apertado, entre móveis e acervos de outras peças que guardava, entre figurinos em sacolas cheirando à naftalina e entre espelhos – porque gostava de se ver falando. “Christofer, não há porque sonhar... a ilusão é tão irrisória...” – repetia, repetia, repetia. E sempre falhava. “Tenho tudo nas mãos, mas tudo escorre como água pelando” e outras balelas mais...
          Sentava-se na privada de seu banheiro lilás e repetia as frases do autor desconhecido. Tomava seu banho relembrando o texto e algumas barreiras da produção, em silêncio, enquanto a água escorria pelando por seu corpo frouxo. Estavam ainda em estudo do texto, leituras brancas (quase apagadas), na mesa, em conversas - não haviam começado os ensaios de marcação. Lavínia adorava marcar, ser dirigida e sentir-se surpresa com alguma fala do diretor, como “use isso a seu favor. Aproveite essa angústia e encontre o olhar da personagem nessa fala. Vem vindo da direita alta, em passos lentos.” – e isso fazia com que Lavínia se sentisse uma deusa dos palcos. Mas ela pescava as frases em silêncio, para passar uma idéia de humildade.
      Chegando à sala de reunião, estava Everaldo, diretor formado em universidade, com um cigarro à boca e trajes suados - Lavínia cria em qualquer palavra que saísse de sua boca amarrotada. Conversaram sobre Pâmela, sua personagem sofrida, enquanto esperavam por Agnes - uma atriz mais velha e com pequena experiência no teatro, de muitos anos atrás - e por Leandro - um ator jovem, franzino, esquisito e inexperiente, de lábio leporino e olhos verdes, a quem Lavínia deveria beijar ardentemente na página 24 do roteiro. Quando todos chegaram, dentro de um atraso já esperado, sentaram-se, fumaram, tomaram café, água, comeram um biscoito vagabundo que Lavínia levou para a leitura. Depois leram a peça, discutiram cada fala com propriedade de quem disseca os sentimentos mais falsos de um ser humano inventado. Sonharam com a peça perfeita, em preto e branco, enquanto sustentavam a ilusão de suas personas.
       Foram todos para suas casas, lendo os textos pelos caminhos, nos ônibus, nos metrôs, nas ruelas. E chegaram em casa, mas só Lavínia pôs-se ainda a sentar na privada com a personagem, a banhar-se projetando filmes de perfeição cênica, a rondar vestígios de outras realidades construídas no aperto de seu apartamento frio. Somente Lavínia deitou sua cabeça pesada num travesseiro de espuma gasta e chorou com Pâmela. Não sabemos se emocionada com o destino dramático da personagem amarrada a um amor impossível – Christofer, que nada se assemelhava a Leandro, em suas fantasias - ou pela impossibilidade de ser outra coisa em sua vida. 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica para viver outra vida.

Marcelo Asth

sábado, 23 de julho de 2011

Só tão lugar cheio

O sótão já está com a porta de acesso emperrada. Os cupins e os fantasmas são a única energia que por lá passeia. As tábuas velhas, árvores deitadas e mortas sob meu teto, sustentam um peso de proteção. Ali o passado está acorrentado a elos de poeira e tédio. Nem o sol mais entra lá para decifrar em feixes o ar cheio de movimento. Quando eu morrer, o sótão morre junto.


Marcelo Asth

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Gastronomia

Vontade de pedir a conta e sair da mesa. Mesmo sendo caro, pago de cara, sem prestações. O ambiente nunca foi tão exaustivo. As pessoas são barulhentas e arruínam minha espera. São turbulência no enfado em que seus olhos passam pelos quadros de paisagens falsas e pelo desejo da saciedade. Eu vejo o cardápio de pessoas que já foram esperadas, mastigadas e digeridas. E me entrego a uma gastrite lancinante, querendo pôr fogo no estoque da cozinha. Desejo incendiário de abrir as bocas de gás – inclusive a minha.
Houve um tempo em que os pratos chegavam quentes, fumegantes, encantados de aroma leve e suculência adequada ao paladar amestrado.
Agora eu cuspo no prato em que você comeu - pra ter certeza de que agora você não espeta mais teu garfo num prato que já foi o teu preferido.

Emanuel Vidal


sábado, 25 de junho de 2011

Açúcar

O pote de açúcar amanheceu tomado de formigas. 

Fico pensando no que seria isso pra gente, trocando as proporções:

Pensei no Tio Patinhas no cofre repleto de moedas douradas. 
Pensei naqueles filmes de pirata onde a câmara oculta pelo tempo guarda jóias que brilham, aos montes. Gazofilácio ofuscante.
Pensei numa criança pobre procurando algo que dê pra ingerir num lixão de São Paulo. 
Pensei em Woodstock, num espaço de muita gente caçando notas musicais numa loucura de outra realidade. 
Pensei no Posto 9 de Ipanema, quando o sol quer lamber os corpos que se mostram demais. 
Pensei no inferno da novela A Viagem. 

Deu vontade de jogar o açúcar no fogo e caramelizar as formigas.


Paula Lanne

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Canção

O peixe espada bebe a água gelada do mar nesta noite, nesta hora, fazendo movimentos únicos e cortando o meio em que vive. Será de noite, será agora, ele tem olhos e guelras.

Marcelo Asth

quinta-feira, 2 de junho de 2011

o Mistério da palavra


Meus dedos resistiram por muito tempo. Por eles vibravam com intensidade um mistério. Eu ouvi esse mistério sem que eu houvesse dado permissão. Desde criança fui criado entre cobras e outros répteis e com eles tenho rastejado. Mas não em público, pois eu sou um nobre cavalheiro do reino que não é meu - do outro lado dos montes. Neste lugar de máscaras, crio em minha intimidade uma cobra que conversa comigo, no silabar e no olhar traçado. Criamos, eu e ela, uma verdade sobre o universo. Ela era o mistério que vibrava em meus dedos. Ela é um mistério que dança. A cobra não saía de minha mão direita, e seu corpo rapidamente ficava quente, dando sangue incomum à cobra. Todos os dias eu me coloco humilde em relação a ela, que tem força e coragem para rastejar a vida toda. Mas diferente das outras, que se friccionam nos solos, ela preferia o calor da minha mão. A natureza da cobra e a natureza do meu calor. Às vezes, sentia um enorme desejo de esmagar a cobra, que me era submissa. Para simplesmente vê-la morta, e me ver diante da morte.



O mago do reino tinha 3 devedores. Ele os quis tão mal, tamanha raiva, que transformou, com feitiçaria e delírio os homens em minúsculos bichos aflitos. O primeiro, alfaiate, despertou naquela manhã na mesa, ao lado do pão, sobre um prato e sob os olhos desesperados da mulher dos filhos. Ela dizia que um homem centenário de cheiro mórbido estava furioso à porta. Mas a voz do alfaiate era tão minúscula quanto sua nova formação. O alfaiate tinha esquecido da encomenda do mago, que vinha com fúria vingar. A mulher dos filhos, por proteção e pensamento inusitado, jogou o alfaiatezinho pela janela. Por entre gigantescas cascas de banana o alfaiate improvisou vestes. Viu-se sendo arrastado e comandado por um mistério. Viu-se solto no mundo, fugindo de si, topando com viajantes. No seu desterro, cruzou com outro homem também transformado em pequena coisa aflita. Este outro, ao contrário do alfaiate, andava nu e não sabia da possibilidade de se cobrir, já que a liberdade do seu mundo interior aumentava com sua pequenez. Outrora miserável e dependente, um maltrapilho de andrajos, meio cigano, meio dono da praça, vestia-se pra não existir. Acreditara na bondade dos homens e que com esmolas quitaria a dívida antiga com o mago. Numa dessas andanças, o outro homem tinha encontrado um outro minúsculo (antes o rei) e os dois tinham se unido. O rei esperava na caixa que servia de abrigo e o maltrapilho ia e vinha. O rei não havia se acostumado com o fato de não ter um séquito de súditos, pois seu pensamento agora tinha ficado menor ainda. O maltrapilho ia procurar comida e no regresso contava ao rei histórias de feudos e aldeias inventadas. Era o maltrapilho agora quem dava as esmolas. Para que o feitiço fosse desfeito era preciso que os homenzinhos comessem numa tarde de outono as uvas trazidas pelo pássaro Salomão. Além dessa tarefa, deveriam enfeitiçar uma cobra e pô-la nas mãos de um homem, seduzida. O rei sonhava todas as noites com o pássaro, o maltrapilho andava em busca dele e o alfaiate não acreditava nessas histórias. Quando viu com os próprios olhos uma cobra emaranhada nas mãos de um fidalgo, além dos planos dos dois homenzinhos nus, lembrou do quão inacreditável era a sua própria história.



A menina de grená, com menos de 2 anos, sentada num convescote, num outono da Europa, imaginou tudo isso, mas não pôde se expressar - não sabia. Então esta história se perdeu.

Sentindo que sua mãe não compreenderia sua história através de seus olhos e seu rosto ruborizado, se encolheu resignada e secretamente deleitosa: a história que se perdeu para as palavras se manteve viva em algum lugar de seu interior grande demais. Secretamente preparada para entender o mundo.


Hieronymus Matteus


terça-feira, 31 de maio de 2011

Filho

- Filho, já disse... desce da árvore. Tenho que te dar de mamar.

E a mãe com os seios fartos de leite, pingava pelos campos, semeando pequenos miosótis. O filho, colocado sobre o galho pelo vento, decidiu-se por ali como casa. A mãe, angustiada, chorava, pedia pro filho vir ao encontro de seu colo. O filho adquiriu garras e apreço pela árvore, que o nutria. Nasceu um broto de seu ouvido esquerdo e do alto de sua moleira, uma flor inédita, matizada em roxo e vermelho. A mãe decidiu escalar a árvore. Seus pés se lascavam, sangravam. A árvore a rejeitava, fazendo cair pedaços que rapidamente apodreciam, galhos que cresciam espetando a mãe, abelhas ordenadas que se endereçavam aos cabelos da jovem mulher.

Farta, sabendo-se não mais dona de seu bebê, a mulher criou raízes no chão, rasgando o solo e puxando toda a energia da terra, secando assim seus miosótis. Seu corpo se metamorfoseou em casca dura - lascas que normalmente demorariam anos pra se tornarem brutas. Suas mãos se fizeram galhos altaneiros, mas a mulher-árvore continuou seca, sem folhas. Seus dedos de pau fincaram na outra árvore, que aos poucos foi secando também, sendo consumida sua seiva.



O filho, vendo sua mãe em tal esforço, chorou, mas de seus olhos caíram folhas outonais. E foi secando, virando um galho quebradiço e gordo.

A mãe amaldiçoou a natureza.

Levi Trüman

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Celeste

Celeste deu entrada no hospital na quarta-feira pela manhã. Quando seu filho médico deu a sentença, impondo pra ela uma internação, ela pensou que dessa vez ela não passava. Pensou que nunca mais ia voltar pra casa, como sempre pensava quando ia para o hospital. Mês que vem completa-se seu centenário. Celeste não quis festa, nada com tumulto. Pensou num almoço simples com a família, na casa da filha que mora em Duas Barras, numa fazendola bem arrumada. Mas no momento em que adentrou o leito em que ficaria pra tratar pneumonia, esqueceu de almoço, de apetite e de centenário. "Desta vez não passo".
No entanto, com o passar dos dias, foi se sentindo melhor, mais forte e dada aos carinhos das enfermeiras. O esfigmomanômetro que apertava seu braço várias vezes ao dia era como um carinho que não sentia há tempos. Lembrava o aperto carinhoso e sensual de Antônio, seu falecido esposo. Despertou lembranças enterradas e mortas-vivas passearam no seu momento. Sua pressão, com todas essas reminiscências, ficava alterada - o que fez com que Celeste ficasse mais alguns dias sob cuidados. Perguntou à enfermeira, zonza de remédios, se estava com mal súbito. Ao mesmo tempo, ganhava uma força descomunal para uma velhinha de 99 anos de idade. Foi convertendo seu discurso dizendo que ia voltar já pra sua casa. E deu adeus a pneumonia.
No mês que se seguiu, lá estava Celeste, com um século nas costas e lembranças nos sorrisos. Almoçou com a família, ficou um pouco sentada com os bisnetos soltos correndo à volta, imaginando o que seria ter pernas com aquela energia. Parecia nunca ter vivido aquela vida de mocidade. Já estava tanto tempo acostumada à lentidão que, quando pegou pra ver a foto revelada da família inteira ao seu redor, percebeu um tempo parado no papel, reunindo ali ela e sua continuação, colocando lado a lado e na mesma condição de imagem fotográfica, os novos cheios de procura e mistério e a velha, cheia de encontro e sabedoria.

Marcelo Asth

terça-feira, 17 de maio de 2011

Falésia


Do alto de uma falésia, num patamar acima do mar e sob a densa tela do céu que se desdobra além do horizonte se fundindo às águas, uma senhora observa o quadro. É um cenário de placidez estética e parcimônia espiritual. Talvez por isso seja manchado com os tons da melancolia. Seus olhos baixos, subalternos, soterrados em lembranças e molhados pelas lágrimas constantes, deixavam-se levar pelo longe das linhas que compunham todo o instante. Ela era tocada pelo vento e aquilo bastava. 

A senhora se pôs à frente do precipício que se precipitava ao mar estrondoso, quando batia nas rochas que estavam sob ela. Já ao longe o mar se acalmava e trazia um estado de calmaria. Ela começou a pensar-se natureza e viu que dentro dela, ondas batiam muito forte espancando suas rochas. Eram lembranças que iam e vinham, como o movimento dos mares. E essa ação insistente do fluxo marítimo provocava a ela erosão. Mas se ela se olhava para o mais distante que podia em sua alma, onde um horizonte se mesclava com o céu de seus pensamentos, via que ali, longe, porém possível e palpável (já que cabia em seu quadro de visão), um mar sereno merecia uma descrição de lago.

Ela, sendo tocada por este vento, como um maestro de único instrumento, mergulhou seus olhos baixos e tristes no fundo do mar que se abria diante dela e perdeu-os por alguns instantes. Viajando por entre ruas de água e sal e por sua imaginação. Ela perdia-se no momento único e real de ver com os olhos e com o momento ímpar e imaginário de sua alma.

Dentro da frouxa onda que se permite no mais profundo ponto do oceano, seus olhos pousaram como anêmonas a levar-se pelo misterioso. Absorvida pela possibilidade de estar ali, a senhora de fato chorou, mas sua mente compreendeu ser a água do mar que adentrava seu pensamento.

Seus dois olhos caíram dentro de ostras que estavam à espera. E as duas ostras fecharam seus olhos baixos por algumas eras. As conchas, casulos perdidos, se colocaram a trabalhar, a burilar, talhar e esculpir o que depois de tanto tempo seriam pérolas. Na imensidão do mar escuro, os olhos se transformaram com paciência e resignação. Um tesouro perdido como em contos de piratas.

A natureza tomou conta de velar sua tristeza, num porta-jóias natural. A senhora, que esperava por eras com os olhos vidrados e esperançosos, vendo a paisagem que se dispunha à composição e também adentrando seu próprio ser, decidiu abrir os olhos cheios de alma.

Paulatinamente sua pestanas se entregaram ao vento. A velha senhora chorou, derramando pelas rochas um pouco mais de mar, que foram suas angústias. Depois de mergulhar com encanto no seu próprio mar, jogou sua cabeça pra trás, mirando os olhos no sol que ardia em energia singular. Abriram-se as frestas de seu olhar, que viam agora estrias de nuvens brancas, um céu muito azul e uma liberdade que passeava por seu corpo como eletricidade.

Marcelo Asth

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Banquete

Eu me sinto servido agora num banquete, e Platão amola as facas pra cortar meu coração. Eros lambe os beiços de pau duro. De olhos fechados escuto alguém que diz algo sobre a téssera complementar. Procuro minha metade assim que me cortarem ao meio. Já achei. Eu fico com o Deleuze que diz que o charme do outro se encontra em seu ponto de demência. Alguém que não desmorona. E é melhor que seja assim, pois a loucura nos salva. Quem passeia na corda-bamba atirando pétalas para os abismos é detentor da graça celestial. O Roland Barthes me diz tudo o que já sei, mas que talvez não tenha parado pra pensar ainda. Ele põe tudo numa bandeja analítica e me serve o amor fatiado, como aperitivo. E digerindo o que me servem, Foucault brinda a festa com palavras que dizem que "temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos". E Dona Penha, que amou seu marido (agora morto) por tantos anos, sentada na quina da mesa, ainda se vê como no dia em que se casou. Está certa.

Então, fico aqui, parado e deitado sobre a mesa, sorrindo louco, sem temer meu estado de torpor, sem querer me entender. Louco. Querendo que a faca me lamba profundamente. Sirva.

Marcelo Asth

sábado, 30 de abril de 2011

Ver-se

Ultimamente sentia que uma ruína se apoderava de seu destino. A começar, encarou com o olhar o seu produto corporal de anos. Seus braços quando acenavam pareciam se alegrar ou se fazer notar mais ainda, devido a pele flácida e desesperada que pendia. Um aceno quando se despedia de uma imagem que abandonava em câmera lenta. Tudo foi gradativo, mas perceber-se foi um momento de rapidez brusca. Quando o olho acorda, lamenta-se a passagem. Sempre há uma cordilheira no meio de um pensamento. 

Um clichê se apoderava verdadeiramente do seu pensamento, aquele sentimento de que parece que foi ontem. Destas palavras surge uma lacuna de dúvida, pois não se sabe se o tempo realmente passou porque não foi percebido, apenas se passaram os dias por movimento solar. E comer pão, fazer a vida, escovar dentes, dormir. O corpo também trouxe sóis e luas marcantes, enquanto o espírito ficava preso ao tempo em que se acostumou com a identidade. 

Nas costas de suas mãos - no lado da mão que não percebe as linhas da vida - várias manchas marrons pintavam a pele, como cracas que viajam silenciosas no oceano escuro que beija o casco de um barco velho. Por baixo da pele suas veias (cordas de harpa) já fazem seu serviço de estradas sabendo todos os caminhos decorados. Petéquias pipocaram nas costas, que estavam brancas demais. As unhas sob o esmalte rosa-chá se amarelaram. O rosto todo cansado de fixar-se tenro à face, querendo colar-se ao instante da vida, agora parecia escorrer e talhar os caminhos de expressão. 

Os próprios olhos, quando olhou-os atentamente, apresentando-os à sua imagem, perceberam que havia algo quase esfumaçado em seu tom - um brilho que se devorava e se perdia. Estes mesmos olhos que eram feitos de selvas e provocavam instintos num fragmento passado. Açulou suas angústias porque se permitiu ver desta forma. Não se reconhecia porque da última vez que se viu consciente foi quando descobriu que existia e via o que era ser criança.

Seus banhos agora não eram mais caprichosos; era difícil abaixar-se pra limpar com destreza cada parte que aprendeu a conhecer. A coluna não se curva tanto e as pernas não vem ao encontro das mãos. Vergonha de ficar nua por muito tempo. Pudor da água que toca o corpo esquecido. Medo de escorregar no piso do box do banheiro apertado. Põe-se agora o pijama e percebe um mau eflúvio pela manhã, como um flor pálida, seca e esquecida num vaso no canto da varanda.

Pra terminar, sabendo-se término, necessitando findar, aprendeu que ver-se nas trajetórias foi sua salvação. Todas as cordilheiras que dividem os pensamentos e as escolhas derrubam-se por si só e mostram que o poder realmente vem de cada um. O mais difícil neste momento é pensar que a imaturidade, a cegueira vital, a ignorância e a aceitação de convenções estabelecidas e generalizadas faz tantos caminhos tomados de bifurcação serem apenas trechos de passagem. Mas tudo era escolha; se ela soubesse... ver-se neste instante era como se o mundo inteiro a aplaudisse, vibrasse, bramisse e fizesse uma pausa espetacular pro compromisso de reconhecimento. Fazia assim tudo ser evidente e eterno, mais extraordinário do que a própria vida. Um exercício de memória pra lembrar do que foi esquecido e pra retomar o que em outros tempo fez questão de passar adiante. Se ainda desse tempo, voltava correndo contra a corrente, desatando e rompendo elos e cordas que atam-na ao tempo, que é um cachorro louco solto num bosque escuro.

Não preparou malas, pois sua única herança não era nem o corpo cansado e beijado pelo o que é finito. O que levaria para todo o sempre era a experiência de faiscar centelhas de vida interferindo em tantas vidas alheias, pisando espaços e revolvendo grãos de areia nas praias, marcando passos, lambendo sem saber as gotas de mistério que se instalaram em sua saliva sedenta de mais mistérios inesgotáveis.

Olhou-se no espelho. Percorreu a reprodução imagética como um raio-x de seus exames muito freqüentes. Não se fixou por muito tempo no reflexo. Partiu seu olhar, em primeira pessoa, para o campo visual de seu território e não sorriu e nem chorou. Nem pensou muito. Talvez tenha sentido ao mesmo tempo um desinteresse por clarear-se uma noção do que é vida e o que são os efeitos de um caminho, fora um alívio de gratidão pelo o que é elétrico e passeia em nossos corpos, quando nos colocamos dentro de um planeta com a resignação dos mortais.


Marcelo Asth