segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Coração


Hoje meu coração tentou sair voando. Ele se debateu por cerca de dois minutos e de forma avassaladora ele me deixou em sobressaltos, até me nocautear. Fiquei no chão pasmo, com vergonha do que os outros iriam pensar. Ele fazendo pirraça ali e eu em frangalhos, chorando de dor. Uma criança mal educada na potência da sístole e da diástole, berrando burra porque não vai ganhar assim o que quis. Minhas costelas foram estruturas abaladas neste episódio, porque um terremoto interno talvez tenha maior impacto que um tremor de chão. Acontece que algumas pessoas me acudiram, outras me acusaram, outras riram e outras choraram, assustadas de verdade. Quando vieram três pessoas me dar a mão pra que eu ficasse em pé, meu coração varou em disparada, me lançando sem controle para a frente. Fui jogado em solavancos numa rua, que por sorte, era uma ruazinha acanhada da Tijuca. Aí só um senhor dono de uma casa de artigos de umbanda que tentou gritar alguma coisa, achando que o problema fosse espiritual. Eu sorri desengraçado, besta na inconformidade da situação. Decidi ir correndo pra praça Sans Peña, pegar um metrô e me abuletar num vagão lotado. Foi a primeira coisa que pensei, porque sempre quis que as pessoas me olhassem dentro do metrô, saíssem das cascas. E por lá achei que seria um lugar onde o peito acalmaria, porque eu deixaria o coração pensativo, com tanta gente estranha e tão perto, ao redor. Sempre olham absortas, absurdas, focadas com o olhar dos mortos e dos esquecidos. Eu fico sempre tentando entender porque meus olhos não se controlam em espaços fechados. Pois cheguei à estação e meu coração saciou a loucura. Um ventilador potente daqueles de estação me balançou os cabelos e o coração parece que foi desmaiando. Ele quase parou de bater. Aí eu fui de vez, desmaiei também, caindo com parte do corpo além da linha amarela de segurança. Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma - meus olhos não viam. O que os olhos não vêem o coração sente. Muita gente gritou porque o trem se aproximava. O coração se sentiu culpado e bateu acelerado. Aí meus olhos acordaram e eu vi de relance, de soslaio, como um flash, a cara do homem que guiava o metrô. Eu nunca tinha reparado no condutor de metrô, me senti estranho, como acordando zonzo de um sonho. E num rápido segundo o coração pulou pra trás, me tacou à força num pulo, me salvando. As pessoas ficaram muito assustadas e fizeram roda à minha volta. Uma velha humilde e evangélica passou mal após gritar de horror. Eu fiquei vermelho e triste, não conseguia falar e a voz tremia. Os seguranças desceram as escadas e se aproximaram. Eu percebi a intenção. Daí, eu que estava exaurido e pouco entendendo, corri muito pela plataforma, querendo correr pelo trilho, virar trem. Aí vieram loucas imagens à cabeça. Pensei que se a frente do metrô tivesse a cara daquele minhocão de parque de diversões de interior, as pessoas talvez entrassem sorrindo no vagão e olhassem umas pras outras e rissem, ou comentassem com humor a novidade. Foi só o pensamento da hora, não tem explicação. Mas eu saí do buraco subterrâneo e decidi voltar pra casa já. Aí o coração foi alertando paz. Resolvi entrar numa igreja católica e perguntar num cantinho pro coração o porquê de todo o vexame. Que balbúrdia - falei recriminando. Ele foi batendo gostoso, talvez arrependido. Rezei um pouco do meu jeito budista, sem ser praqueles santos que me olhavam com pena e ar de superioridade. Nem estava aí pra eles, estava querendo levar um lero à sério com meu peito. Falei de isquemia, de infarto, miocárdio oleoso, artéria entupida, coronárias sebentas, falei de gordura de porco, torresminho de bar com ovo rosa, margarina na colher, latas de leite condensado que eu podia tomar pra me vingar. Podia tapar o nariz pra ficar sem ar e causar uma hipóxia braba. Que na veia cava podia cavar uma angústia que faria ele bater amargurado. Disse pra ele se controlar e se fizesse esse escândalo de novo, que eu podia até meter uma faca grossa por entre as costelas. Eu faço isso contigo? Responde? Faço? Tem neguinho por aí que se estrepa de tanto errar com o coração, escolhe até amor errado. Eu não, comigo não, coração. Ele se debateu rebelde e eu bati no peito pra mostrar quem manda. Disse que saindo dali compraria um picolé de uva pra refrescar um pouco esse calor que ninguém merece. Aí ele bateu respeitoso, parece que entrou no eixo. Que eu não estava a fim de ser olhado na rua. Talvez só dentro do vagão, pra não ficar incomodado com a frieza dos olhares opacos dos outros. Por conta de escândalo do peito? Valha-me. Dei um chega pra lá. Mas fica aqui quietinho, me respeita. Daí saí da igreja com um pouco de medo do alien que me habita, meio inseguro, mas forte depois da conversa, sabendo que agora ele tem que entrar no jeito de uma vez por todas, andar nos trilhos e marcar o compasso certo, ritmado, ceder às minhas vontades e ser careta, bater numa mesma frequência, habitual, que me faça ser discreto e disposto no dia a dia, contraindo e relaxando o músculo até que a morte nos separe. Ele parece que entendeu.

Duda Gero

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poço

Eu não sou um poço profundo que abraça um balde cheio. Sou cheio de seca e não posso oferecer nada além do meu eco. Pede água, eu seco. Cospe no fundo, eu me encho, instantâneo. Eu não te contei ainda, mas posso desabar a qualquer instante. Eu, que sou feito de pedras, sofro de corrosões aflitivas, de falsos rebocos, de grandes vazios.
Quando o meu eco vier carregado de perguntas, vai começar a ruir pelo fundo, por onde você não consegue ver. As infiltrações que não me permitem dar a água que você pede pra beber, escondem as gotas fugidias. Eu não sei como acumular pra te dar. Eu tento, mas teu balde quer ser cheio. Você tenta ver seu reflexo, mas meu interior é escuro e não permite o espelho natural.
Eu sei que a um quilômetro de sua casa tem um açude cheio de água gelada e limpa e uma paisagem que faz encher de desejo seus olhos. Você por lá já nadou nu, se masturbou com a água, se agarrou na vegetação que se curva e mergulhou fundo, pulou de cabeça de uma pedra fabulosa. Mas você vem ao poço porque tem preguiça de andar um pouco mais e sabe que no açude pode encontrar mais alguém nadando nu e se curvando como a mata sedenta. Pra você é mais fácil dar dez passos da varanda e lançar imperativos em busca de água.
O poço que construíram não agüenta mais saber que bem perto há um açude sem rachaduras e que você prefere ir lá, mas não quer se cansar. Você tem medo porque lá é público e outras pessoas têm sede de mergulho. Orgulho. E se é pra matar a sede, eu me esforço pra não ruir, pra acumular o que você pretende pedir de mim. E este velho poço, ninguém mais procura.

Gabriela Schineizer

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Contractile



De repente deu uma vontade de olhar pras estrelas, só que não aqui na cidade, onde as luzes de mentira acostumam os olhos e deixam tudo em letargia. Eu queria me deitar numa madrugada, num rastro de grama molhada, cheio de desejo e murmúrio e me deixar penetrar pelos sons do mato, enquanto lá no alto (numa distância que não se sabe precisar) cintilam estrelas neon. Deu uma vontade de perder o rumo, de conversar com o nada, me entrevistar. Os olhos no escuro aos poucos vão se acostumando com a ausência das coisas. Depois de um tempo você olha e faz um bem retrair as pupilas, na solidão da íris contractile. E com essa vontade toda não existe solidão. Porque assim não preciso do outro, de ninguém, me sinto uma entidade em contato com o interno, com a natureza, com o assombro misterioso da nudez da essência bruta. Eriça o pêlo e no corpo passeia uma adoração.
Bateu um desejo de subir uma montanha por horas, sem me preocupar com o tempo e com a preocupação dos outros. Subir, me cansar, fazer uma aposta com a própria mente. Abrir mato com as mãos, sentir o frio da paisagem e dormir sobre uma pedra, isolado do medo, soberano. Esperar o sol nascer pra se emocionar com o espetáculo. Parece que nasce só pra mim. A maioria dorme e quem está acordado parece dormir. Contrariar a segurança colocando um pé na boca do precipício e gritar pro mundo, lá do alto, alguma frase de efeito. O impacto da voz retorna num eco que me enche de ilusão. Quando eu descer a montanha durante mais algumas horas, aos poucos vou me reiterando a condição de ser do mundo, voltando a ser gente, abaixando a bola.
Vou tomar um banho agora com água muito gelada pra tirar o suor. Preciso suar muito, me desgastar, deixar o corpo em frangalhos. Quanto mais apanha mais a alma se entende. Vou colocar uma ópera pra tocar no aparelho de som e comer uma fruta que me lembre um sabor antigo.
Saudade de ler poesia em voz alta, de alterar a consciência, pintar a cara e rebolar sem medo, dar vexame pra ninguém ver. É divertido demais se permitir.
Eu quero me permitir a tudo, porque sou dono do que eu quero ser. 




Marcelo Asth

Chopp

Márcio atirava pra todos os lados. Mas quando via alguém tão jovem, lindo e radiante, insistia na provocação. Mandava três mil mensagens pela internet, forçando encontros seguidos de exclamações, comentários e desejos que partiam sempre mais dele do que do outro. A internet era uma solidão. Não conseguia se realizar nos relacionamentos quando se tornavam reais. Ficava besta, produzindo futuro, mais temendo que amando e nunca  entendendo ser de um. Queria ser de todos. Tinha uma carência que dá dó de ver, e uma auto-estima que chegava a ser ridícula. Se achava o bam-bam-bam e todas as onomatopéias juntas. Lia os livros que os objetos de desejo liam, pra poder ter comentário. Se esforçava o coitado, mas era deixado pra trás. Marcava sempre um chopp com os garotos que cobiçava e tentava levar tudo no risinho. Foi tanta negação, inícios frustrados e falta de saber o que queria, que depois de tanto tempo, recebendo agora as mensagens de Cristiane e seus convites para um cervejinha, cedeu aos encantos da moça porque tinha auto-estima elevada e agora um combustível para nutri-la. Começaram a namorar, noivaram, casaram. 

Márcio continua mandando scraps para os garotos, querendo se instalar nas cabeças alheias e querendo ser conquistado.


Marcelo Asth

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sismógrafo

Veio com o propósito de iterar suas intenções mornas e arrefecidas. Fazia dois anos que uma discussão e muito ciúme haviam rompido as barreiras do entendimento. O caráter irascível de Gabriel pôs a solidez toda abaixo, desestruturando uma história calcada em momentos plenos e na maioria do tempo felizes. 
O convívio entre ele e seu namorado Renato era da mais pura intensidade e verdade, visto que os dois se consumiam intensamente numa unicidade que gerava nos olhos alheios um brilho de felicidade e inveja. Os dois tinham tudo pra dar certo, tudo em comum. Seus encantos e predileções passavam pelos mesmos canais e seus pares de olhos dançavam como numa farândola. Se buscavam por todos os meios, fosse por mensagens de celular, por msn, por facebook, por orkut e, principalmente, nas investidas da madrugada, quando Gabriel visitava de surpresa o apartamento de Renato, no mais caloroso encontro. A visita de surpresa era corriqueira e o moderno Romeu já era um papel decorado.
Foram 8 meses e 12 dias de paixão insolúvel. No mais, os dois tinham vidas normais e trabalhavam na normalidade dos dias. Fora isso, tudo era encontro de carne e de coração. Nos últimos tempos de namoro, Gabriel passou a podar os gestos, os olhos e os desejos de Renato. Tudo o que se direcionava era uma projeção interrompida. Na rua, quando saíam, Renato parecia usar um tapa-olhos como um cavalo de direção única. Avante, sempre em frente. Não mais sorria (porque seus dentes eram belos demais para uma exposição) e não mais se encontravam com os amigos (porque Gabriel dava a eles títulos de aproveitadores e sonsos). Dizia que qualquer carinho amistoso era um desdobramento de um desejo maior. Renato nem mais bebia, porque Gabriel dizia ter ciúmes da sua ebriedade, mesmo caseira. 
Por mais que houvesse amor, por mais que houvesse carinho, o estopim do rompimento se deu quando Marcos, um amigo de Renato, ligou convidando para um lual na noite seguinte. Pediu que levasse um livro, o violão e algumas cervejas. Riram de alguma coisa no telefone porque eram amigos. A conversa foi ouvida por Gabriel quando saía do banheiro. Se dirigiu instantaneamente e com propriedade à extensão do telefone e se pôs aos gritos intempestivos e desvairados que agora tinham se tornado rotineiros. Tudo era motivo para revirar os olhos. Gabriel olhou profundamente nos olhos de Renato dizendo que deveria sim temer a amizade entre ele e Marcos, pois sentiu nos risos que vinham flutuando até o banheiro uma intimidade demasiada carinhosa, uma sonoridade que escondia paixão. Renato expulsou Gabriel de casa sem ressentimento. Era demais suportar uma situação constrangedora de não mais ser quem ele antes era, negar uma essência para dar lugar à loucura que vinha se instalando imperiosa. O sismógrafo apitava e a terra tremia.
Foram dois anos de tristeza, mas a razão era resoluta e não abria brechas pro esmorecimento. Não se viram, não se procuraram por mensagens, redes sociais e bate-papos. Renato excluiu suas contas das redes sociais e criou perfis falsos, com o nome de Tamagoshi. E ali postava suas fotos com sorrisos abertos (porque seus dentes eram belos demais para uma exposição) e fotos com seus amigos, abraçados, deitados, queridos, brindando champagne. Trocou seu número de celular e deu graças aos ceús por não ouvir mais aquela música medonha configurada chamando a todo o instante com a foto de Gabriel, de rosto sisudo e sensual. 
Mas como da vida não se consegue facilmente um escape ou uma exclusão (até porque, obviamente uma fuga completa seria o suicídio), passados dois anos Gabriel conseguiu o novo número de Renato com uma amiga em comum. A ligação foi atendida, a voz se estabeleceu tensa e a cabeça de Renato gelou por vagos instantes. O sismógrafo parecia apitar frenético e o chão se mostrou trêmulo, com vontade de escapar de seus pés. Do outro lado da linha, uma voz tímida, objetiva, amistosa, bela e bem empostada acenou bandeira branca e pediu um encontro, um café e algumas palavras. Tamanha foi a surpresa de Renato que não houve impedimento pra palavras positivas. Haviam se passado dois anos e os fatos já estavam adormecidos. Os dois tinham vivido grande paixão, onde chegavam a se confundir em simbiose. Tinham uma energia muito parecida, um encontro de espíritos, uma loucura pelo outro. Renato na hora sorriu e em sua cabeça se projetaram somente os bons filmes da relação. Gabriel na cama era um pecado.
Marcado o local do encontro, do café e das palavras, os dois se encontraram e pareceu que tudo foi ontem. Gabriel não sabia mais como olhar nos olhos, mas os seus pareciam saber pedir desculpas. Gabriel esticou sua mão direita e sentiu que seu punho tremia. Convidava a mão de Renato. As duas mãos encontraram-se novamente e todo o entibiamento se despediu da névoa branca que cobria há tempos os dois. Os perfumes se enrolaram no olfato e no abraço e aquelas faíscas inexplicáveis se permitiram a brilhar como que mistura química das auras.
Não havia ali menor desejo de agressão, de rostir no rosto. Era só desejo de carinho na cara e no corpo. Foi dada à largada pra que os corações se acelerassem, a paz se restabelecesse, perdões fossem alimentados e desencantos fossem redimidos.
Gabriel era galante e Renato sorria mais branco que nunca. As notícias vinham à tona, emergidas do soçobrante desespero de se desencontrar. Foram dados pêsames pela mãe de Renato, que morrera há alguns meses. Parabéns pelo novo cargo de Gabriel, que almejara a tantos anos. E revelada a atual situação amorosa de Renato.
Renato há pouco menos de um mês havia firmado compromisso com Marcos, seu amigo do riso, do livro e do violão. Estavam namorando à sério, desejosos um pelo outro. Renato dizia que com Marcos estava tudo diferente, como ele nunca havia sentido ou tido algum dia. Disse estar completo, cheio de planos. Gabriel sentiu que a terra pulsava sob a mesa e que as xícaras dos cafés pulavam nos pires postos. Aos poucos foi voltando da tonteira que se acometeu, mas a terra ainda balançava tresloucada e os cacos do seu coração errante agora faziam um barulho aterrador.



Marcelo Asth

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Né qué dizer



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Né Qué Dizer, que traz poemas-músicas-e-quer-dizeres-profundos: