sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Carpa Tubo Vermelho





A angústia cai densa feito granizo em câmera lenta, enuviando a garganta, manchando o solo, tapando os buracos, correndo água espessa. Bateu aquela pena de mim, dor de produto. É demais ser configurado humano. Tá na chuva para se molhar. 

A chuva cai densa feito granizo em alta velocidade, som martelante no coração. Eu tremi porque pensei que pudesse escangalhar. O coração se debateu de frio - carpa num lago escuro e serrano. Bateu aquela pena de mim, como quem bate clara em neves.

Todas as projeções me assombram. É como estar de frente a um beco de sonho, negro colorido, de medo e não saber se vai à frente ou acorda. Eu vazo um pouco do vazio da angústia nas vagas expressões de pena. É demais ser configurado humano: tudo é galeria, vitrine de um longo tubo vermelho de fantasia. Um pouco de liberdade sufocante. Nada mais.


Marcelo Asth

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ciúme

A dor do câncer é involuntária, é insatisfeita, é sanguessuga. O bote se dá como picada na selva, corpo-curto-circuito, vontade de desmaiar. A dor do câncer machuca tudo e todos. Eu fui me despedir de mim, enquanto me cortava em mil. Enquanto choro, embaço o mundo, pingando dor ruminada. A dor do câncer é uma pinçada.

domingo, 27 de novembro de 2011

Dominó



Uma calapsita, dois cactos, um peixe feio que refletia o neon, uma televisão de 1985 (que só deu problema duas vezes até hoje), um gato branco de porcelana na estante bamba, um sofá com a marca do lugar preferido e uma cortina florida (um lar de ácaros). Orandina no meio desses elementos, cosia, vendo o filme da tarde. Bastava um pio de bem-te-vi vindo de fora e a velha imitava o pássaro, numa mania besta. O café esquentando no bule novo, um pão quentinho que ela trouxe agora-agora, chinelas com meias, ar abafado, sorriso mental. Paz na terra às senhorinhas aquietadas, vida mansa que só.

O telefone toca. A velhinha pequena fica na dúvida se é em sua casa - há muito não ligam pra lá. Atende dizendo "pronto". É Ângela, que demora a reconhecer. "Ângela... Ângela... ah! Ângela, quanto tempo! Me desculpa, minha filha, é que já tô meio tan-tan."

A mulher que ligou não ligava há uns 3 anos. Era sua ex-nora. Ela e o filho de Orandina moravam em Gramado, sul do Brasil - foram pra lá há muitos anos e abriram uma sorveteria que não deu certo. Aliás, nada por lá deu certo, nem o casamento. Mas ficaram; a cidade era bonita. Ligou pra dizer que o ex-marido, filho da ex-sogra, o Everaldo, tava no CTI e que... 

Orandina gelou e desligou o telefone na hora, sem mais ouvir, porque CTI é caso sério. O nervosismo tomou conta e ela chorou sem saber o que fazer, parando imóvel ao lado da calapsita que ficou também nervosa em ruídos descontrolados. Saiu da casa a velha, ruminado uma quantidade imensa de "meu Deus" e esquecendo o café esquentando no fogo. Foi chamar no muro Ruth, vizinha boa, mas a voz não deu. Foi picada ali por uma abelha estranha que se enfiava entre as graxas - a flor feia que dava no lado de lá do muro da Ruth. A velha foi ficando tonta, inchando o rosto, mudando a cor. Entrou novamente pra sentar, perdendo o ar. Seu pé entrou por debaixo da dobra do tapete grosso e ela caiu batendo o ombro da bursite na mesinha de centro. A calapsita insistia berros, o peixe olhava assustado. Os ácaros de nada souberam. 

Por sorte o telefone tocou novamente - na raridade de duas vezes no mesmo dia. Era Ruth - que ligava pouco porque tinha o muro -, querendo saber se Orandina estava a fim de jogar dominó com ela. As duas jogavam vez ou outra pra passar o tempo, tomando café e falando da Igreja. Orandina atendeu golfando um "meu Deus" numa voz sem jeito, de agonia, e Ruth correu esbaforida num galope, deixando a Bíblia cair de debaixo do braço e deixando-se esquecer das coxas roliças assadas na saia de crente. 

Abriu o portão e por sorte Orandina não tinha colocado a tranqueta. Deu água pra velha, gritou Tijolo pra pegar o carro - que guardavam na vaga do prédio da frente. Correu pro hospital e, no caminho, deitada no banco de trás do Passat com Ruth, teve um infarto. Ruth gritou e Tijolo foi rezando alto e forte - um desespero desmedido. Foi pro CTI desacordada. Ruth se chocou, passou um tempo com Tijolo por lá, resolvendo as coisas, e ligou pra uma irmã que Orandina tinha na cidade. 

Quando Ruth voltou pra casa, cansada e abatida, com olhos fundos e opacos, sentiu cheiro de queimado e correu pra casa da velha vizinha. O café esquentando não era mais café: era uma massa preta fundida com o ferro do bule novo que já tinha queimado, junto a um pano de prato que dava início a um incêndio feio na cozinha tomada de calor. A calapsita de Orandina ficava na cozinha e já tinha morrido - coisa horrorosa mesmo de se ver. Ruth foi gritando pro Inimigo sair dali, pedindo ajuda de Deus e tentando falar a língua dos anjos (como os pastores faziam no culto). Inacreditável, uma brabeira. Tijolo providenciou água pra apagar o quanto podia e ligou pro 193.    

Everaldo nem ligava muito pra mãe, só dava um toque por mês - quando muito. Mas era filho, isso era verdade. Ela não ligava pra não incomodar. E ligar pra lá era mais caro. A velha poupava em tudo. "Filho a gente cria pro mundo". Ele trabalhava no CTI - Centro de Taekwondo IMPERADOR, ao lado da Gramado Fitness. Era dono da academia e professor de Taekwondo. Isso tudo depois da sorveteria não dar certo. Orandina não sabia pronunciar o que o filho fazia de jeito nenhum. "Essas lutas malucas de japonês". E também não era de ficar lembrando o nome da academia do filho, lá longe no Sul.

O que aconteceu foi um equívoco - talvez trapaça do Inimigo. É que Everaldo dava muita aula e pediu pra sua ex-mulher Ângela (com quem tinha agora um bom relacionamento, como amiga, e que trabalhava como secretária do CTI) pra que entrasse em contato com sua mãe pra convidá-la a passar uns dias em Gramado, chegando até mesmo antes do preparo da festa de debutante da neta Priscila. E pediu pra dizer que mais tarde, à noitinha, ligava de volta pra saber se a velha tinha se decidido a ir. A ex-mulher não entendeu o motivo de Orandina desligar o telefone em sua cara. Ficou pê da vida e disse pra Everaldo ligar depois - que ela estava sem paciência pra chilique de ex-sogra caquética.

Não teve telefone de volta. A irmã de Orandina foi pro hospital acompanhá-la, ligou pro Everaldo e contou o que havia acontecido - ou pelo menos uma pequeníssima parcela dos fatos ocorridos com a mãe dele naquele dia. Têm coisas que só quem vive é que sabe. 

Ângela recebeu a notícia, chorou feito criança e se lembrou com assombro da última vez que ouviu a voz de Orandina - sem saber que era ela que havia impulsionado, sem querer, a última peça da fila de dominós que a vida de Orandina dispunha secretamente.


Marcelo Asth

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Demência

- Sim, Clarice, nós ainda somos muito jovens...
- Eu queria ter 5 anos.

E ficavam a ralentar a nostalgia na suspensão de um passado perfeito. Pois não precisava ser perfeito, mas trazer uma atmosfera de um tempo passado, onde nada os preocupava. Na memória, estavam intactas as lembranças junto às criações que o tempo nos dá em liberdade. Tudo vira uma soma de algo que não existe, mas que aconteceu. Lá estão as noites de verão na varanda, a folia de Reis na madrugada - acordando a casa -, as tanajuras infestando o quintal em revoada, os olhos ardendo do sal do mar, os macacos brancos do zoológico. Esses macacos ficaram na cabeça como um marco de um contato com a natureza mais distante (de forma próxima), uma luz perfeita sobre a copa das árvores do local, o cheiro da água que levantava do tanque do hipopótamo. 


Mas ficou uma lembrança que eles tinham certeza de que havia acontecido: um dos macacos brancos falou com eles. Clarice que disse na hora, Marcos acreditou. Até hoje eles têm a certeza do fato. O macaco tinha falado sobre ter cuidado com os outros que se escondem na árvore pra roubar tudo o que existe. Não tinha muito nexo, mas aquilo impressionou profundamente.

- Um dia eu quero ser grande.

Falou, já adulto, sem compreender o que dizia. Clarice levantou os olhos e sentiu na palma das mãos a secura do tempo e não soube mais pensar com precisão o que é o tempo. A lembrança infestava sua mente como as tanajuras veraneias, morrendo vespertinas.

É um tempo sem tempo este que os habita. Um tempo onde as lembranças trazem a perfeição, pois o passado traz a base da felicidade que não tem volta. A felicidade nunca está lá na frente, ela já passou. Não tem mais jeito.

- Eu também quero crescer. Mas do jeito que eu era antes... como a gente era.

Qualquer lembrança era mera coincidência com o ocorrido. E vinha revestida de onirismo e demência. Toda a forma de se acessar o incrível lago submerso de nossa história é pura insanidade.



Martina Lengruber 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dentes-de-leão


Quando eu era criança, amputava com minhas mãos inexatas e inocentes as hastes frágeis dos dentes-de-leão. Daí, dono daquela leve efemeridade, soprava com a força de um Zéfiro o pólen branco que se dividia aéreo como projéteis vivos. E de repente me via com cabinhos verdes na mão, sem graça, bobos. Não me eram mais úteis. Então, jogava-os na grama. Ali aprendi a espalhar o que agarrava com firmeza e jogar fora o que não me prestava. E quando a gente espalha algo, sabe que não é mais nosso, que vai além. Eu teria polinizado algum canteiro verde com minha ação de vento.
Hoje, parece que amputo meus pensamentos – campos sem-fim de dentes-de-leão. E com eles na mente, sopro com um pulmão limitado, débil e enfermo, o que posso pra fora. Expiração de esforço, lobo mau derrubando castelos dos grandes. Metade dos pensamentos bate no ventilador da sala - meu moinho quixotesco -, metade alcança uma parábola decrescente e mira o chão. Talvez um pensamento apenas voe na direção certa. Esse, espero que polinize o campo verde que quero reproduzir. Ainda pode estar vagando, curtindo as ondas do ar. E é meu desejo agora guardar os cabinhos pra uma coleção de fracasso.

Marcelo Asth

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

12:54

Posso parar este instante no máximo de detalhes que recolho. Retalhos: pios, calor, janela aberta em leve brisa, um caminhão dispara o motor, uma mulher fala ao telefone coisas de uma vida alheia, a montanha não se aguenta de luz, as flores morreram (mas ficaram hastes verdes), 12:43, menta no boca, quadros estancados, coluna curvada como a montanha. A imagem nas mãos, não nos olhos. Mas se abrir uma fenda no meu corpo, vai vazar tanto espírito que não se acreditaria. Pra não derramar por inteiro, vou só furar um ponto, com uma agulha calibrosa, de intenção pontiaguda e roliça. Pronto. Já saiu tanta coisa, que dá pra averiguar nos montes que se revelaram em minha sala, diante dos olhos – e não das mãos. Antes, devo aconselhar que a vida é só uma experiência. E quando estamos tristes, parece que entendemos, de fato, tudo. O pessimismo revela aos quatro cantos de qualquer espaço, uma entoada de sabedoria, como vento forte. É que se pára para perceber que tudo é prova. Ganhamos sentimentos da natureza por provação. Somos fase de videogame – quem será o habilidoso jogador a manipular os impulsos? Aí são olhos e mãos.
O que tem ao redor, que saiu fedendo, jorrando e temendo – revelando -, foi um desgaste tremendo que nem um pouco cintilou de luz. Uma dúvida curvada (não como a montanha), 12:49 (e todos os outros tempos contidos), uma sensação de fracasso (por não ser como o mármore, por não ser um deus), uma estranheza do mundo (difícil é alcançar paz, como uma montanha), fotos (antigas), fofocas (mentirosas e lancinantes), chateação (ainda futura), vitrines (tudo é exposto), tolices (desejo de ser maior que tudo o que aflige), músicas (seria conforto uma surdez repentina), ciúmes (não sou aquele).
Precisei furar um ponto na pele por estar estourando de lotado. Guardo tudo e não reciclo. É tanto medo colocar as mãos e olhos sobre o lixo, reciclar-devolver beleza ao mundo. No momento, prefiro vomitar, furar pontos, conduzir tudo o que me pesa pro fundo do oceano, onde um golfinho no golfo possa se alimentar e golfar todo o reciclado que, por fora de mim, se faz em contato com o mundo. Sou tão pequena que agora me escondo. 12:54.

Marli Gadot 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Trompete

Quanto maior a ignorância, maior o medo. Não pela questão de ignorar por opção. As coisas são muito difíceis de entender. E será certo entender tudo? Ficamos no medo. Ficamos no meio do caminho, não querendo voltar, sendo penoso o passo à frente. Daí, o medo. Não tenho a suficiente sede de busca para me arrebatar a coragem vertiginosa. A coragem, sim, vem em forma de vento.
Minha opinião é curta; não culta; acredito no que é melhor; sou pouca razão; muita sensibilidade. Sendo ignorante de muito, mamando nas tetas sem saber da proveniência do leite, se me dão um tapa pra acordar, me acusando de estar dormindo... daí vem o medo. Pra acordar, concordar, entrar em acordo com quem me esbofeteia. E eu, olhando o alto do céu, num mínimo barulho, como um grilo de olhos espantados. E o outro, querendo-me elefante de sons de trompete. Se me explicarem bem, eu entendo. Quase nunca por mim só.
Me sinto inseguro por não me segurar. Me vejo no escuro quando durmo num olhar cego não por querer, mas por estar.

Marcelo Asth

Página 24

         Lavínia precisava decorar seu texto: 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica. Andava pelo apartamento apertado, entre móveis e acervos de outras peças que guardava, entre figurinos em sacolas cheirando à naftalina e entre espelhos – porque gostava de se ver falando. “Christofer, não há porque sonhar... a ilusão é tão irrisória...” – repetia, repetia, repetia. E sempre falhava. “Tenho tudo nas mãos, mas tudo escorre como água pelando” e outras balelas mais...
          Sentava-se na privada de seu banheiro lilás e repetia as frases do autor desconhecido. Tomava seu banho relembrando o texto e algumas barreiras da produção, em silêncio, enquanto a água escorria pelando por seu corpo frouxo. Estavam ainda em estudo do texto, leituras brancas (quase apagadas), na mesa, em conversas - não haviam começado os ensaios de marcação. Lavínia adorava marcar, ser dirigida e sentir-se surpresa com alguma fala do diretor, como “use isso a seu favor. Aproveite essa angústia e encontre o olhar da personagem nessa fala. Vem vindo da direita alta, em passos lentos.” – e isso fazia com que Lavínia se sentisse uma deusa dos palcos. Mas ela pescava as frases em silêncio, para passar uma idéia de humildade.
      Chegando à sala de reunião, estava Everaldo, diretor formado em universidade, com um cigarro à boca e trajes suados - Lavínia cria em qualquer palavra que saísse de sua boca amarrotada. Conversaram sobre Pâmela, sua personagem sofrida, enquanto esperavam por Agnes - uma atriz mais velha e com pequena experiência no teatro, de muitos anos atrás - e por Leandro - um ator jovem, franzino, esquisito e inexperiente, de lábio leporino e olhos verdes, a quem Lavínia deveria beijar ardentemente na página 24 do roteiro. Quando todos chegaram, dentro de um atraso já esperado, sentaram-se, fumaram, tomaram café, água, comeram um biscoito vagabundo que Lavínia levou para a leitura. Depois leram a peça, discutiram cada fala com propriedade de quem disseca os sentimentos mais falsos de um ser humano inventado. Sonharam com a peça perfeita, em preto e branco, enquanto sustentavam a ilusão de suas personas.
       Foram todos para suas casas, lendo os textos pelos caminhos, nos ônibus, nos metrôs, nas ruelas. E chegaram em casa, mas só Lavínia pôs-se ainda a sentar na privada com a personagem, a banhar-se projetando filmes de perfeição cênica, a rondar vestígios de outras realidades construídas no aperto de seu apartamento frio. Somente Lavínia deitou sua cabeça pesada num travesseiro de espuma gasta e chorou com Pâmela. Não sabemos se emocionada com o destino dramático da personagem amarrada a um amor impossível – Christofer, que nada se assemelhava a Leandro, em suas fantasias - ou pela impossibilidade de ser outra coisa em sua vida. 37 linhas rebuscadas de tédio e fala esquizofrênica para viver outra vida.

Marcelo Asth

sábado, 23 de julho de 2011

Só tão lugar cheio

O sótão já está com a porta de acesso emperrada. Os cupins e os fantasmas são a única energia que por lá passeia. As tábuas velhas, árvores deitadas e mortas sob meu teto, sustentam um peso de proteção. Ali o passado está acorrentado a elos de poeira e tédio. Nem o sol mais entra lá para decifrar em feixes o ar cheio de movimento. Quando eu morrer, o sótão morre junto.


Marcelo Asth

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Gastronomia

Vontade de pedir a conta e sair da mesa. Mesmo sendo caro, pago de cara, sem prestações. O ambiente nunca foi tão exaustivo. As pessoas são barulhentas e arruínam minha espera. São turbulência no enfado em que seus olhos passam pelos quadros de paisagens falsas e pelo desejo da saciedade. Eu vejo o cardápio de pessoas que já foram esperadas, mastigadas e digeridas. E me entrego a uma gastrite lancinante, querendo pôr fogo no estoque da cozinha. Desejo incendiário de abrir as bocas de gás – inclusive a minha.
Houve um tempo em que os pratos chegavam quentes, fumegantes, encantados de aroma leve e suculência adequada ao paladar amestrado.
Agora eu cuspo no prato em que você comeu - pra ter certeza de que agora você não espeta mais teu garfo num prato que já foi o teu preferido.

Emanuel Vidal